Vendo a lista de melhores do Filmes do Chico, percebi que esqueci de colocar em minha lista os filmes de Clint Eastwood lançados no ano. Segue, então, a lista definitiva, com as devidas mudanças:
1- Em Busca da Vida - Jia Zhang-ke
2- Maria- Abel Ferrara
3- Anjos Exterminadores - Jean-Claude Brisseau
4- Medos Privados em Lugares Públicos - Alain Resnais
5- Cão sem Dono - Beto Brant e Renato Ciasca
6- Lady Chatterley - Pascale Ferran
7- Império dos Sonhos - David Lynch
8- Tropa de Elite - José Padilha
9- Cartola - Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
10- A Comédia do Poder - Claude Chabrol
11- A Conquista da Honra - Clint Eastwood
12- Antes Só do Que Mal Casado - Peter & Bobby Farrelly
13- O Hospedeiro - Bong Joon-ho
14- Não Por Acaso - Philippe Barcinski
15- O Sobrevivente - Werner Herzog
16- Os Donos da Noite - James Gray
17 - Cartas de Iwo Jima - Clint Eastwood
18- Ligeiramente Grávidos - Judd Apatow
19- Estamos Bem Mesmo Sem Você - Kim Rossi Stuart
20- Ratatouille - Brad Bird
O triste é que com isso cairam dois filmes brasileiros. Paciência.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
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Sérgio Alpendre
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19:20
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A ressurreição do Melomania:
http://melomania.blogspot.com
Muitos já devem ter percebido o quanto eu gosto das revistas inglesas de música. Mojo, Record Collector, Q e Uncut foram compras obrigatórias daqueles tempos felizes de paridade com o dolar. Depois, escolhia qual comprava em cada mês, e de vez em quando fazia uma loucura e comprava duas delas. A Uncut me encanta especialmente pela mistura (70% música, 30% cinema), que invertida, dá mais ou menos a Paisà. E a Mojo pela diagramação, e pelas reportagens, entrevistas fantásticas, e apanhados de discos com cotações (a Mojo e a Record Collector se renderam às cotações tão amadas pelos leitores ingleses nos últimos dois ou três anos). A lista que publiquei para ressuscitar o melomania é a dos 100 maiores discos do período de existência da Mojo, até maio de 2006, quando eles chegaram ao número 150. É uma lista deliciosa, ainda que eles, como todos os críticos ingleses, tenham se enganado pela falácia que é o Oasis. Recomendo a procura em sebos do número 150 impresso, com Elvis Presley na capa. É uma beleza de 164 páginas.
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Sérgio Alpendre
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01:58
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sábado, 12 de janeiro de 2008
Vejam só o paradoxo. O Suspeito (Rendition, 2007), de Gavin Hood, é um filme de mensagem pacifista, que condena os atos extremistas e a maneira como os EUA combatem o perigo do terrorismo (com tortura). Só que a música new-age é tão onipresente e irritante, que eu saí do filme com vontade de bater e quebrar tudo à minha volta.
E O Diário de uma Babá (The Nanny Diaries, 2007), da dupla que havia dirigido O Anti-herói Americano, Shari Springer Berman & Robert Pulcini, é a prova definitiva - se é que precisávamos de uma - do enorme talento de Laura Linney. O filme tem mais invenção do que a média dos filmes bobinhos americanos, mas o desfecho é um tanto frustrante, paradoxalmente porque não é a montanha-russa climática que esperávamos.
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Sérgio Alpendre
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19:03
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Post livre:
- primeiramente, uma indicação de leitura:
http://cinema-de-invencao.blogspot.com/2008/01/im-sorry-brasil.html#links
Sempre achei que essa era a maneira mais honesta de se fazer uma crítica a um filme. O mais pessoal possível. E olha que eu gosto dos dois filmes que ele delicadamente espinafra, para provar que não tem nada a ver com eu concordar ou não com o gosto de quem escreve. Cortesia do saudoso Jairo Ferreira, publicado no delicioso blog editado porJuliano Tosi.
- é engraçado como as pessoas parecem gostar de se amontoar. Hoje, esperando um dos ônibus amarelos que descem a Augusta, cerca de dez pessoas se inquietam no ponto. Como sempre que ele atrasa, vem outro em seguida. E o outro veio realmente em seguida, no vácuo, qualquer um podia ver. E não é que só eu entrei no segundo (que tinha vários lugares para sentar)? Todas as outras nove pessoas preferiram surfar de pé no ônibus mais cheio. Vai entender.
- minhas últimas sessões de cinema... vai, as cinco últimas - sendo fiel à minha memória - foram marcadas por pessoas comendo salgadinhos o filme inteiro, ou falando numa altura indesejável, como se estivessem numa arquibancada de futebol. Fico achando que o alto preço dos ingressos fez uma espécie de filtragem, deixando a freqüência de espectadores ser dominada por uma classe ignorante e mal educada, que tem dinheiro para pagar o baldão de pipoca, mais o ingresso e o estacionamento, mas não tem a menor consideração com quem está à sua volta. Quem quiser se concentrar no filme que se dane.
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Sérgio Alpendre
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01:06
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
A Outra Face da Violência (Rolling Thunder, 1977), de John Flynn
* * * *
O major Charlie (William Devane) chega da Guerra do Vietnã como um zumbi. Seu tempo é outro, e não se harmoniza com o tempo das outras pessoas. Ele se acostumou à adrenalina da guerra, e agora sente que tudo é muito lento, tudo parece acontecer em câmera lenta. Mas é ele que está em câmera lenta. Ele e seu amigo (Tommy Lee Jones). Sua mulher reconstruiu a vida ao lado de outro homem, e seu filho cresceu longe de seus olhos. Agora ele é um eterno deslocado, será sempre um veterano de guerra. Flynn imprime um tempo igual ao do major: arrastado, moroso, com o tédio se instalando a todo momento. Quando sua ex-mulher e seu filho são assassinados, Charlie tem a oportunidade de voltar à ação. Ele coloca o uniforme militar (com o qual se sente seguro em sua condição, e vai para a vingança, frio, como se estivesse mostrando apartamentos. Nunca deixa de ser um zumbi. Um dos filmes mais tristes e sombrios dos anos 70, A Outra Face da Violência revela uma América profundamente abalada, vivendo um colapso de sentimentos e motivações. O pessimismo é sua marca mais forte. Quem acusou o filme de fazer a apologia da violência gratuita estava muito equivocado.
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Sérgio Alpendre
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03:26
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The Last Wave (1977), de Peter Weir * * *
Tudo no filme é água. Água que cai do céu, das torneiras que nunca se fecham, das paredes da casa, é o feitiço e a tradição aborígene se manifestando por esse elemento. A exemplo de seu filme anterior, Picnic na Montanha Enfeitiçada, Weir é especialmente feliz na atmosfera estranha que domina tudo, e na exploração da cara de máscara de Richard Chamberlain, onde estaria a explicação de todas as bizarrices que estavam acontecendo - explicação que vem apenas parcialmente. É o melhor filme do diretor em sua terra natal, a Austrália. E para purgar essa atmosfera aquática, seu filme seguinte seria O Encanador. Weir, por sinal, é dos diretores mais regulares que eu conheço. Todos os seus filmes merecem a mesma cotação (* * *), com destaque para The Last Wave e para A Costa do Mosquito, e com a exceção de Sem Medo de Viver, filme que não me convenceu.
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em tempo: BBB 8 - Rafinha, o tatuado que entrou no jogo no último momento, me parece gente fina também.
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Sérgio Alpendre
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02:40
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
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Sérgio Alpendre
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01:20
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terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Uma pequena lista inusitada: filmes que eu tenho medo de rever.
O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1990), de Peter Greenaway
A plasticidade exibicionista da coisa toda não me assusta. Nem os flertes com a pintura flamenca, muito menos o clima de fim de século que impregna o filme (pelo que eu lembro, claro). Nem mesmo a pagação de pau para Godard, Kubrick e Pasolini (o que causa a ira de muita gente - como ele ousa?). Tenho mais receio de encontrar algo que me passou despercebido na última vez que o vi (mais ou menos em 1993, na minha segunda revisão do filme). Aliás, ainda não entendo o porquê das pessoas xingarem todo o cinema do Greenaway por causa dos equívocos dantescos dos últimos anos (quase todos os filmes que ele fez desde O Bebê Santo de Macon). A Última Tempestade, A Barriga do Arquiteto e Afogando em Números merecem revisões atentas de quem não gosta. Apesar de também constarem entre os filmes que eu tenho medo de rever.
O Ilusionista (1986), de Jos Stelling
Principalmente porque não gosto de nada que ele fez depois, e acho que O Homem da Linha é um filme que tem apenas momentos bons, sendo bem irregular no conjunto. O que mais me preocupa é encontrar aquele climão de filme de arte para inglês ver, bem característico de certo cinema europeu dos anos 80. Medo de encontrar algo de O Holandês Voador, ou de Nem Trens Nem Aviões.
Bagdad Café (1987), de Percy Adlon
O diretor já explica o medo. Mas eu juro que na época que vi o filme (em VHS, mais ou menos por volta de 1990) encontrei muitas coisas interessantes, e um humor estranhíssimo que justificava o interesse. No arquivo de cotações, ele continua com três estrelas, como era na época - o que é muito acima da média do diretor.
Um Homem Meio Esquisito (1988), de Patrice Leconte
Eu me apaixonei por este filme quando o descobri na época em que fora lançado em VHS, pelo selo Belas Artes, da distribuidora da Abril (que confusão, não?). Estaria aceitando perfumaria? Rendido ao pior do circuito "de arte"? Ou o filme realmente é a obra-prima do Leconte, ou ao menos seu filme mais bem sucedido? Tem Sandrine Bonnaire, o que torna uma possível revisão um pouco menos arriscada.
Eu Sou o Senhor do Castelo (1988), de Régis Wargnier
Como podem perceber, os filmes que vi no começo da cinefilia (1989-1990) me dão mais receio do que os vistos em qualquer outra época. Apesar de eu me alimentar de informação e cultura em doses cavalares na época, não confio muito no senso estético que eu tinha. Aliás, para mim a apreciação de um filme tem o prazo de validade que varia entre dois e cinco anos. Depois disso, só dá para amitir algum juízo de valor que seja confiável com nova revisão. No caso deste filme de Wargnier, lembro bem que a fotografia me impressionou (como geralmente impressiona quem está iniciando na cinefilia), assim como a música de Prokofiev (Romeu e Julieta) e sua utilização no decorrer da narrativa. Jean Rochefort é um senhor ator, e também me impressionou. O receio é de que a fotografia seja sufocante demais, ou que a narrativa tenha algumas chantagens baratas.
... a continuar
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Sérgio Alpendre
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18:54
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
O Beijo Amargo (The Naked Kiss, 1964), de Samuel Fuller * * * * *
Mesmo ficando um pouco abaixo de Casa de Bambu, Cão Branco, Quimono Escarlarte, Paixões que Alucinam, Pick Up on South Street, Eu Matei Jesse James e Baionetas Caladas, o filme nos reserva uma aula impagável de bom cinema:
Constance Powers entra no casarão do noivo, com o vestido para o casamento numa caixa de papelão. Percebe que uma gravação reproduz a canção que as crianças cuidadas por ela no hospital cantavam; anda um pouco para o outro cômodo e seu rosto se petrifica. O que ela viu? O contraplano que demora um pouquinho mostra um close da menina, que logo se dirige saltitante em direção à porta. Em seguida, um novo contraplano ao rosto já mais escandalizado do que petrificado de Constance mostra seu noivo, com cara de criança matreira que aprontou das suas. Novos cortes alternam a fúria de Constance com o pedido desastroso de compreensão do noivo. A cena termina com ele desfalecido, com o véu de noiva cobrindo seu rosto, seguido de alguns planos curtos de partes insólitas da casa, e de um plano último com Constance parada do lado do corpo. Era o caso de sair e pagar um novo ingresso.
Tudo é perfeito. O atraso do contraplano explicativo, a canção que produz uma estranha atmosfera de horror, a feição incriminadora do noivo, a pedra que toma o lugar do rosto de Constance por alguns segundos, sua entrada na casa - e sua percepção da gravação que estava sendo reproduzida, toda a movimentação dos atores no espaço, o close da garotinham - com algo meio desfocado cortando sua cara. É uma verdadeira aula, que me lembrou o começo de Pick Up On South Street, de um erotismo absurdo e indisfarçável.
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Sérgio Alpendre
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21:08
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sábado, 5 de janeiro de 2008
Ontem estreou, exclusivamente no HSBC Belas Artes, o melhor filme da primeira fase de Pedro Almodóvar: A Lei do Desejo. O flerte com o gênero suspense, e com Alfred Hitchcock, revelam um diretor antenado com as convenções, e esperto na hora de driblá-las. É o primeiro filme dele que explora ludicamente a linguagem cinematográfica - o que se tornará uma constante em sua obra - com efeitos de montagem primorosos como o dos olhos que se fundem às calotas do carro em alta velocidade, e quadros elaboradíssimos. Depois desse filme, se iniciaria uma fase de transição na qual Almodóvar parece indeciso entre o escracho e o melodrama, até que ele pendeu de vez para o melodrama, sempre temperado por um maneirismo fassbinderiano e pela falta de pudores em explorar as nuances mais obscuras de seus personagens (exemplo máximo: Fale com Ela, mas também Carne Trêmula e Tudo Sobre Minha Mãe). Vale rever A Lei do Desejo, que é de 1987, e comparar com o sussurrado Volver (uma beleza de contenção e domínio do ritmo), que esteve em nossos cinemas em 2006.
TOP 10 Almodovar:
1) Fale Com Ela (2002)
2) Carne Trêmula (1998)
Tudo Sobre Minha Mãe (1999)
Volver (2006)
5) A Lei do Desejo (1987)
6) Entre Tenieblas (1984)
7) Matador (1986)
8) A Flor do Meu Segredo (1995)
9) Atame (1990)
10) Que Fiz Eu para Merecer Isso? (1985)
obs: juro que tentei evitar o empate no segundo lugar, mas foi impossível.
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Sérgio Alpendre
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17:29
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Ontem fui conferir Meu Nome Não é Johnny, numa sala menor do Arteplex, que, diferentemente de todo o ano passado, estava bem cheia e ruidosa - o que me fez ver que há pelo menos uma vantagem na escassez de público dos cinemas. Esperava que não fosse tão ruim quanto o que disseram, mas encontrei um filme no mínimo simpático, com a que talvez seja a melhor interpretação do Selton Mello no cinema, no papel de João Guilherme, o mauricinho que resolve viver a vida à sua maneira mais hedonista, sem se preocupar com os meios financeiros para conseguir isso.
O filme de Mauro Lima é muito feliz especialmente na maneira com que faz coincidir a alienação do personagem com a do público (que pouco sabe além do que o personagem sabe). Nesse sentido, me pareceram problemáticas todas as cenas que se afastam do homem que nao é Johnny, mas João. Até sua prisão, essas cenas se limitavam a um flash de máquina fotográfica indicando que alguém o vigiava - um clichê do cinema, e a um ou outro comentário paralelo de amigos dele. Ainda assim, existe uma habilidade surpreendente na dramaturgia, no naturalismo dos xavecos e broncas dos personagens, nas gírias que pipocam por todo o filme. João não fala a gíria carioca da época (essencialmente anos 80, mas também começo dos anos 90), mas o que importa? Ele fala a gíria dele, uma mistura da que já existia com a que ele popularizava entre seus amigos. A dedicação do ator ao personagem é o maior trunfo do filme.
Depois da prisão, os problemas passam a se tornar mais freqüentes, geralmente nesse sentido de se afastar do protagonista, e uma das personagens mais problemáticas é a da juíza interpretada por Cássia Kiss, tida como linha dura, mas que na verdade é uma pretensa mãe, que se condoia de ver o bebêzinho Johnson (não Johnny) ali chorando na frente dela no tribunal. Mas quando mostra a casa dela fica evidente que o diretor não é bobo, já que a sala é muito parecida com a da casa dos pais de João, e é filmada da mesma maneira, com a câmera do lado de fora de um enorme vitrô. Pode ser simples coincidência, ou falta de criatividade na hora de planejar as cenas, mas não creio.
Acho bobeira entrar no assunto de que o cara é branco, bem nascido, e por isso teria melhores condições de se sair dessa situação humilhante. Isso é óbvio, e o cinema não tem obrigação alguma de trair a obviedade. Teria, sim, uma obrigação de fugir da explicação tematizante tosca como a frase da juíza (que aparece escrita no final do filme) falando da prova de que é possível recuperar um ser humano, porque aí existe uma implicação a mais que o filme parece ignorar, a de que o entorno social conta para que essa recuperação seja possível. No mais, toda a seqüência de João na prisão é bem decente, e não há condescendência com ele, a não ser na cena da surra do japonês. Já no hospício a coisa volta a desandar. Ainda bem que dura pouco. Um filme bem digno, apesar desses problemas. Entre duas e três estrelas, no padrão Paisà. Vamos ver para qual lado vai com o passar dos dias.
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Sérgio Alpendre
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15:29
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Reforçando:
Não foi nenhum comentário específico que me fez tirar o espaço. Mesmo achando que eles não sejam essenciais, sempre me divirto um bocado lendo os comentários (e mesmo achando que raramente eles fazem algo andar). Esqueci também de mencionar que este novo template já havia sido experimentado antes, mas recuei porque na época (meio do ano passado) não consegui colocar os comments do Haloscan. Como acho os do blogger muito ruins, além de que no meu computador demoram para entrar, acabou sendo mais um motivo para eu tomar essa decisão. Dois leitores me mandaram e-mail discordando da atitude, mas deixando entender que prometiam fidelidade (ainda bem); e um comentou comigo por telefone que talvez alguns entendessem que eu estava denegrindo os comentários deles. Pois reitero: não se trata disso. É só uma experiência, para tentar aumentar o número de posts, já que muitas vezes esqueci ou desanimei de postar por causa da diversão dos comments descontraídos.
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Um grande diretor argentino
Para completar o post, e retomar o assunto cinema, devo dizer que Silvia Prieto, de 1998, é o melhor filme de Martin Rejtman (ainda não vi Copacabana). Fiquei realmente impressionado com o humor desse filme, e com a maneira leve com que ele junta todas as pequenas histórias. Silvia Prieto é a perfeita simbiose entre o tempo bressoniano de Rapado, de 1991 - seu primeiro longa -, e o drama inusitado de Los Guantes Mágicos, de 2003, acrescido também de um humor ainda mais próximo de Tsai Ming-liang do que na estréia. Ah, o episódio do terno Armani em Silvia Prieto é um dos momentos mais geniais do cinema nos últimos vinte anos.
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Sérgio Alpendre
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20:50
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Bem-vindos ao novo Chip Hazard
Alguns esclarecimentos antes de seguir em frente:
1) A proposta. A visitação deste blog certamente aumentou desde o início da Paisà. Por isso, muitos leitores não devem saber com que propósito eu comecei a escrever aqui, em fevereiro de 2004. Naquela época, queria escrever mais para a Contracampo, mas o trabalho não deixava. Precisava praticar, já que a escrita pode enferrujar e eu lamentava não ter a mesma verve jornalística que tinha no colégio ou na faculdade (sim, era um ótimo aluno, e meu conhecimento de língua portuguesa era maior). Desde o final de 2005, meu ofício principal é ser crítico de cinema. Portanto, o blog, mais do que nunca, é necessário como o lugar onde as idéias podem ser elaboradas, melhoradas, descartadas, revisadas, o que for. Um blog esboço. Um blog laboratório. Nunca acreditei no Chip Hazard como um espaço de crítica de cinema. Sempre achei que sua vocação, ou melhor, a vocação de qualquer blog, é servir como propulsor, catalisador ou espaço embrionário de reflexões (que existiriam concretamente e melhor desenvolvidas em outro lugar). Obviamente, "regras" podem ser quebradas, e não será difícil eu tentar algo mais ambicioso por aqui. Mas quero deixar bem claro que não é a minha intenção inicial, apesar de não ser intenção também fechar as portas para qualquer coisa que possa enriquecer a leitura.
2) Comentários. Espero que os visitantes que tinham o hábito de comentar aqui não se sintam ofendidos com a supressão do espaço. Discordo radicalmente dos que argumentaram que o espaço de comentários é a área nobre, a razão de ser de um blog. Meus comentários em outros blogs (que continuarão existindo, já que esta é uma opção puramente pessoal), raramente me parecem essenciais, assim como 90% dos comentários em qualquer blog que eu conheça. Quanto maior a visitação do blog, maior a incidência de comentários supérfluos. O que não quer dizer que eu me divirta com eles, e seja parte de tudo. Só estou combatendo a opinião de que os comentários são a razão de ser de um blog. Não são, nunca serão. São espaços divertidos, que muito de vez em quando podem acrescentar, mas não são essenciais para nada. Mesmo as possibilidades de discussão podem existir de outra maneira (com textos de outros blogs que linkem a outros textos, emails no cabeçalho de cada post, encontros com leitores - que são de longe as respostas mais interessantes que eu recebi nestes quase quatro anos como blogueiro de cinema... ). Mas confesso que o estopim para que eu tomasse as decisões foram os anônimos que vira e mexe aparecem com comentários ofensivos (se bem que entrar como anônimo me parece sempre a maior ofensa). Não quero acionar a moderação de comentários porque sempre achei um saco ficar censurando, ou mesmo controlando a freqüência, além de que a idéia de ficar de plantão quando um comment aparece se assemelha ao apocalipse para mim. Prefiro cortar logo o espaço, e admitir que não é uma posição irreversível, mas apenas uma experiência. Eu mesmo sinto falta dos comments, e não me surpreenderia se eles voltarem ainda neste semestre. Em tempo: muito raramente recebo esse tipo de comentário. A decisão visa o futuro, já que pretendo postar muito mais em 2008.
3) Interação. O e-mail sealpendre@gmail.com existe há muito tempo como back-up de arquivos importantes, mas agora eu resolvi dar uma função mais nobre para ele, que servirá como espaço aberto para quem quiser se manifestar, discordar, me xingar, qualquer coisa está valendo. Sempre que algo interessante aparecer, eu publico em um post, ok? Sou aberto a críticas, e os que me conhecem sabem disso. Continuarei receptivo aos que gostam de comentar os posts quando me encontram. Sempre achei que o diálogo olhos nos olhos vale muito mais do que qualquer outra interação, mesmo com a característica mais tateante da linguagem verbal. Os que moram longe, ainda tem o espaço do e-mail. Mas eu nunca descarto encontros possíveis num futuro bem próximo. Será sempre um prazer.
Bem, era isso o que eu tinha para dizer. Espero que gostem do novo Chip Hazard, e aceitem a minha vontade de experimentar por aqui.
Feliz 2008 para todos.
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Sérgio Alpendre
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19:33
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terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Melhores filmes de 2007
Novo ano, novo blog. Prometo mais postagens, mais esboços, mais provocações, maior cuidado com a escrita, maior incidência de coisas que escapem um pouquinho do assunto cinema (mas só um pouquinho, ok?).
Sem comments, mas vou estudar um outro jeito de manter uma comunicação, nem que seja com um link para um endereço de e-mail no final da postagem ou na barra lateral do blog.
Começando com o inevitável balanço de 2007, que será breve, prometo.
A lista dos melhores segue o critério do prêmio Jairo Ferreira, ou seja, só foram considerados filmes que estrearam em São Paulo ou Rio de Janeiro no decorrer do ano (e aqui eu vou contar as estréias do dia 28 - que são fracas mesmo, não entrariam de jeito nenhum).
1- Em Busca da Vida - Jia Zhang-ke
2- Maria- Abel Ferrara
3- Anjos Exterminadores - Jean-Claude Brisseau
4- Medos Privados em Lugares Públicos - Alain Resnais
5- Cão sem Dono - Beto Brant e Renato Ciasca
6- Lady Chatterley - Pascale Ferran
7- Império dos Sonhos - David Lynch
8- Tropa de Elite - José Padilha
9- Cartola - Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
10- A Comédia do Poder - Claude Chabrol
11- Antes Só do Que Mal Casado - Peter & Bobby Farrelly
12- O Hospedeiro - Bong Joon-ho
13- Não Por Acaso - Philippe Barcinski
14- O Sobrevivente - Werner Herzog
15- Os Donos da Noite - James Gray
16- Ligeiramente Grávidos - Judd Apatow
17- Estamos Bem Mesmo Sem Você - Kim Rossi Stuart
18- Ratatouille - Brad Bird
19- Antonia - Tata Amaral
20- Person - Marina Person
e a inevitável lista inflada de menções honrosas (sem ordem de preferência)
Fora do Jogo, 500 Almas, Quebra de Confiança, Jogo de Cena, Planeta Terror, Duro de Matar 4.0, O Engenho de Zé Lins, Viagem a Darjeeling, Mutum, Os Simpsons.
Comentário: fiquei feliz de ver um monte de filmes brasileiros aí em cima. São três entre os dez melhores, seis entre os vinte, e dez contando os filmes das menções honrosas. Já imaginava que nosso cinema estaria bem representado na minha lista final, mas me surpreendi com a quantidade que escolhi da lista de estréias.
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Sérgio Alpendre
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06:49
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domingo, 30 de dezembro de 2007
Comentários sobre alguns filmes vistos recentemente em casa.
Strip Search (2004-versão de 56 min.) - Sidney Lumet * * *
Dois interrogatórios. Um na China, outro nos EUA. Situação espelhada que às vezes irrita pela obviedade, e não é totalmente necessária para que Lumet seja realmente incisivo. A fala do professor no início do filme - que é repetida no final - me parece atingir o alvo muito mais em cheio. Mas as seqüências dos interrogatórios são realmente surpreendentes. E a entrega de Maggie Gyllenhall é muito boa de se ver.
Além do Azul Selvagem (2005) - Werner Herzog * * *
Premissa bem doida, que Herzog nem sempre leva às últimas conseqüências. Entendo que a intenção era fazer uma mescla do documentário mais careta e institucional com uma ficção tresloucada que se disfarça desse mesmo documentário careta, mas em alguns momentos o filme fica comportado demais, pendendo para o didatismo. Os vinte primeiros minutos são um primor.
O Albergue (2005) - Eli Roth * *
Muito bem filmado, com uma escolha de elenco competente e a eterna molecagem masculina valendo um bom número de belos planos. Patina um pouco na metade final, quando soluções toscas vêm para fazer com que a narrativa ande (penso sobretudo no mais inteligente dos personagens caindo feito patinho na armadilha, ou no diálogo com o cliente doidão em inglês - essa eterna mania de esperar que o espectador esqueça que eles estão na Eslováquia).
Fantasma (2006) - Lisandro Alonso *
Cinema fetichista e egocêntrico. O filme não me diz nada, ao contrário de Los Muertos, que não me diz muita coisa, mas ao menos faz com que eu queira seguir o trabalho do Alonso, irmão bastardo de Sharunas Bartas (outro que já esteve sob suspeita), cujo A Casa, se não me falha a memória, lembra um pouco este Fantasma). Nem os comentários de espectadores revoltados por terem gastado dinheiro com o que, segundo eles, é uma "perda de tempo", me fizeram simpatizar um pouco mais com o filme.
- obs: talvez este seja o último post do ano, e o último com comments. Espero que continuem me visitando em 2008.
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03:45
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
http://movies.groups.yahoo.com/group/a_film_by/messages/47088?threaded=1&m=e&var=1&tidx=1
é por causa de discussões interessantíssimas como essa que eu lamento não ter paciência para acompanhar a lista A Film By mais constantemente.
Deu vontade de rever vários Lumets, mesmo bobagens como The Wiz ou Equus, e de descobrir os que eu nunca vi.
E, claro, rever vários Cukors... mas isso é sempre necessário, não é mesmo?
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Sérgio Alpendre
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03:02
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Meu post natalino.
quem não gosta de Werner Herzog... (em homenagem ao belo O Sobrevivente, em cartaz nos cinemas brasileiros)
Hercules (curta) (1962) * *
Sinais de Vida (1968) * * * *
Também os Anões Começaram Pequenos (1970) * * * *
Fata Morgana (1971) * * * *
Land of Silence and Darkness (1971) * * *
Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972) * * * * *
O Enigma de Kaspar Hauser (1974) * * * *
Coração de Cristal (1976) * * * * *
Stroszek (1977) * * * *
Woyzeck (1978) * *
Nosferatu (1979) * * * *
Fitzcarraldo (1982) * * * *
No Coração da Montanha (1991) * * *
Lições da Escuridão (1992) * * * *
A Rússia Vista por... (ep: Sinos do Abismo) - p/TV (1992) * * *
Meu Melhor Inimigo (1999) * * *
Invencível (2001) *
Ten Minutes Older - Trumpet (ep: Ten Thousand Years Old) (2002) *
O Homem Urso (2005) * *
O Sobrevivente (2006) * * * *
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Sérgio Alpendre
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16:29
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007
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Sérgio Alpendre
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20:43
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
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Sérgio Alpendre
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00:19
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Preparando o leitor para a Paisà que vem aí.
TOP 10 Gus Van Sant:
1) Elefante
2) Mala Noche
3) Últimos Dias
4) Paranoid Park
5) Garotos de Programa
6) Drugstore Cowboy
7) Gênio Indomável
8) Psicose
9) Gerry
10) Um Sonho Sem Limites
* obs: não curto muito os dois últimos, e os dois primeiros são obras-primas.
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Sérgio Alpendre
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01:39
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sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Estava rondando post antigos à procura de algumas palavras sobre Paul Verhoeven e me deparei com esta defesa apaixonada de um dos filmes de Billy Wilder. É de agosto de 2004, muito antes de eu saber que um dia teria uma revista impressa de cinema chamada Paisà. Criei o blog como um laboratório onde seriam esboçadas idéias que seriam ou não aproveitadas em textos futuros. A intenção era praticar a escrita, para escrever mais para a Contracampo. Segue a defesa de 2004:
Testemunha de Acusação (1958) – Billy Wilder
Increditável como Wilder subverte o que deveria ser um filme de tribunal, mas acaba sendo uma ode ao romance da terceira idade. O par romântico central é na verdade o advogado que acaba de sair do coma e sua enfermeira (Charles Laughton e Elsa Lanchester), e passa o filme se maldizendo. Mas no último e genial plano, saem abraçados do tribunal. Tyrone Power, o astro, passa o filme inteiro como corno manso, e depois revela-se como o mais mau-caráter. Dietrich (que não gostou de trabalhar com Wilder) começa como a sacana e termina como a passional injustiçada. Wilder subverteu até o whodonit habitual de Agatha Christie. Criou contra planos que renegam, ao mesmo tempo em que fingem enaltecer, o engenhoso estilo da escritora. Exemplo máximo nas cenas entre os advogados no escritório, todos vulneráveis (principalmente Laughton) à inspeção mental da câmera. Wilder se apega aos detalhes, mas separa-os da caracterização positiva que Agatha Christie usualmente fazia do personagem, para alçá-los como excentricidade pura e simples, sem que isso queira dizer habilidade de raciocínio (como o Laughton brincando com as pílulas). É o jogar xadrez como exercício para melhor jogar xadrez. E o que é aquele plano com a estátua da justiça em obras? Parece ter sido um delicioso acaso. Havia o perigo de tornar desinteressantes as cenas em que Laughton não estivessem, mas isso não aconteceu. A maestria de Wilder (que tinha uma enorme noção de enquadramento e de onde colocar a câmera, ao contrário do que muita gente pensa) consiste também no corte no momento certo. Ele dita o ritmo perfeitamente. E a decupagem alcança o sublime nas cenas do tribunal. Principalmente quando a câmera focaliza a enfermeira, ou quando está atrás do juiz, ou atrás da testemunha da vez. É aí que fica claro do que o filme trata. Poucas vezes um amor que que tem medo de aflorar, apesar das evidências, foi tão bem captado por uma câmera.
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Sérgio Alpendre
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sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Não foi só pela expectativa baixa, mas Antes Só do Que Mal Casado, de Peter e Bobby Farrelly, é bem melhor do que andaram dizendo por aí. É inegável o domínio de cena deles, do uso do espaço, e eles tão filmando em scope de maneira exemplar. Não que fique uma coisa muito atirada: "oh, vamos jogar com as possibilidades do formato". Eles simplesmente preenchem esse espaço, sem muito alarde. O filme tem uns tempos bem esquisitos, e daí deriva uma impressão que eles não sabiam muito o que queriam, que é falsa. Pode ser até um filme tortuoso, com alguns momentos em que parece apenas bater ponto - quase todos os que Stiller tenta algum diálogo com a esposa, depois de já ter se apaixonado pela sulista graciosa - , e outros francamente repulsivos (carne e líquidos saindo do nariz da esposa, bolhas explodindo em seu braço...). Mas é um belo filme tortuoso, com um Stiller inspirado - e sua eventual piada hispânica, contrabandeada da frat pack. E o final, pelo amor dos meus filhinhos, é espetacular. É de cortar o coração, e aponta para uma transgressão do próprio cinema deles, e em especial de Amor em Jogo.
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Sérgio Alpendre
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quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Profissão: Mulher (1982), de Claudio Cunha, pretende investigar esse ser estranho e complexo, fascinante e misterioso na mesma medida. Termina fazendo uma categorização de arquétipos femininos que se dão mal com homens. Não sei se o tiro não saiu pela culatra. De qualquer forma, é um filme bem digno, apesar de estar longe da transgressão de Amada Amante ou de Snuff - Vítimas do Prazer. A cena em que Patrícia Scalvi depila a perna da Simone Carvalho, numa banheira, é de uma beleza incrível, e é inesquecível para nós, homens.
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Sérgio Alpendre
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05:03
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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Que grande filme é Zoo, de Robinson Devor. Grande pela maneira como cerca o relato, circularmente, e como se coloca aos poucos, sempre junto das descobertas da zoofilia, que virou crime no estado de Washington - capital, Seattle, após um caso de morte de um dos seus praticantes. Altamente recomendado.
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Sérgio Alpendre
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02:27
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007
- Nova atualização do site da Paisà. Confiram em http://www.revistapaisa.com.br/
Tópicos ensandecidos em ordem crescente. Ou, como a umidade de Manaus queima neurônios.
- Os filmes aqui em Manaus estão surpreendendo. Subestimei a Marion Hansel - e seu filme Si le Vent Soulève les Sables - durante a mostra, mesmo gostando de dois filmes anteriores dela: Entre o Céu e o Mar Azul Profundo e A Pedreira. Não dava nada por um filme australiano que até agora é meu preferido do evento: Lucky Miles. E ainda deixei para rever a obra-prima Cão Sem Dono na mostra de filmes brasileiros que o Cinesesc sempre faz em dezembro porque a cadeira do belíssimo teatro Amazonas dá dor no traseiro (mas de tão dura impede que a gente durma, o que não deixa de ser uma vantagem). Até o Jean-Jacques Annaud me surpreendeu com um filme que, se está longe de ser bom, também não pode ser acusado de ruim. E nem é daqueles que ficam no meio, e são insuportáveis.
- Ontem, numa festa na praia do Rio Negro - a 50 quilometros ao norte de Manaus, uma imagem inesquecível: a belíssima atriz italiana Caterina Murino dançando ao som de Novos Baianos. Para se olhar à distância, como um voyeur, como um cinéfilo. Ela não deve ser de carne e osso mesmo. É miragem causada pelo calor e pela umidade. O rambo do Amazonas dançando com a chinesa maluca também foi inesquecível, pelo que teve de cômico. Na seara da disputa folclórica que rola aqui, entre os bois Caprichoso e Garantido, fico com o segundo, pela graciosidade de sua sinhazinha - e sua heróica apresentação debaixo de um vestido armado e gigantesco.
- Hoje, descobri que Cajá é Taperebá em Manaus (tinha escrito Tapebaré, mas um amigo aqui da sala de imprensa me corrigiu). O sorvete disso é inesquecível. Numa combinação com o de tangerina, fica algo de outro mundo. Espero que não derreta no frigobar do hotel. E a pizza daqui é incrívelmente boa. Os amigos cariocas iriam continuar dizendo que a deles é melhor, e o médico deles pediu pra não contrariar.
- Estou pensando em retirar os comments deste blog. É que para mudar para o template que mais me agradou, eu teria que abdicar do Haloscan, o que me deu a idéia de não entrar para o sistema de comentários do blogger (que não me agrada muito). Devo perder alguns leitores, mas há uns três meses (quando tentei mudar o template) penso que eles são supérfluos. Divertidos, e tudo mais, mas não acrescentam muito (e não estou falando de ninguém em especial, os meus também são assim). Continuar a ler comments que não acrescentam muito a um post como este, que também não acrescenta muito (eu diria até que não acrescente nada), é algo que só faz perder tempo de leituras mais interessantes. as leituras de blog tomariam menos tempo sem essa febre de comentários para marcar presença (mais uma vez, também faço isso, e isso é algo que já penso há um tempo, não tem nada a ver com os últimos comments, mesmo porque são de um ídolo meu - simultaneamente a um enfado com este blog, uma vontade de não mais ter um blog). Perdi um amor há três meses, por que não perder comments deste blog? Sei lá, quem encontrar um sentido em tudo isto (e eu digo ISTO), é um herói.
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Sérgio Alpendre
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03:21
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segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Os filmes que vi de John Boorman (convidado do 4º Amazonas Film Festival), e subestimado - às vezes por mim mesmo:
À Queima Roupa (1967) * * * *
Inferno no Pacífico (1968) * * *
Amargo Pesadelo (1972) * * *
Zardoz (1973) * *
O Exorcista II - O Herege (1977) * * *
Excalibur (1981) * * *
Floresta de Esmeraldas (1985) *
Esperança e Glória (1987) * * *
Onde Está o Coração (1990) * * *
O General (1998) * * *
não vi, mas tenho em casa, para ver assim que puder:
O Alfaiate do Panamá
Em Minha Terra
vou rever durante a semana, em película:
Floresta de Esmeraldas
(mas queria rever outros tantos)
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sexta-feira, 9 de novembro de 2007
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Sérgio Alpendre
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terça-feira, 6 de novembro de 2007
Sonhando Acordado (La Science des Rêves, 2006), de Michel Gondry, tem algumas imagens bem interessantes. E as falas suicidas de Bernal para Gainsbourg poderiam dar certo se todo o desencadeamento anterior do filme contribuisse para isso. Infelizmente, o filme beira o desastre, por alguma dessas ciências tão caras ao cinema, e nem sempre valorizadas. Uma série de más sucessões de imagens já colocam o filme para baixo com menos de meia hora de duração. E aí quase nada mais funciona. Não é surrealismo, como ouvi de mais de uma pessoa durante a Mostra. No surrealismo temos o absurdo, oriundo da imaginação ou de um sonho, invadindo a realidade. Em Sonhando Acordado não há realismo a priori, logo, não há surrealismo. Estamos desde o início num terreno puramente imaginário, e o pouco que o filme tem de contato com a realidade se dá como uma suspensão da ordem natural das coisas - que seria, segundo o filme, delirante. Pode até ser chamado de surrealismo às avessas. Poderia ter dado certo, mas cinema não é tão fácil de se fazer quanto parece, e se o diretor não tem noção do mundo fora dos videoclipes, fica ainda mais difícil. Em Brilho Eterno tínhamos a graça de Jim Carrey e o charme de Kate Winslet para ajudar. Aqui, nem Miou Miou salva. Nem Emma De Caunes.
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007
A volta do blog de TV da Paisà.
http://www.revistapaisa.com.br/tv/index.html
Confiram...
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domingo, 4 de novembro de 2007
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